
Hoje caminhava na rua quando encontrei uma senhora que era cliente assídua da livraria onde trabalhei durante 4 anos. Quando a vejo não resisto em dar-lhe um abraço pois é uma pessoa muito especial. Ela costumava ir à livraria com o seu marido. Estão os dois já perto da casa dos oitenta anos e era uma ternura vê-los chegar de mãos dadas, sempre muito cúmplices, que só uma vida em casal pode proporcionar. Eu costumava olhar para eles e pensar como é extraordinário conseguir viver com outra pessoa após tantos anos e sentir que ainda há muito amor para dar e receber. Parece-me que são o exemplo vivo de duas pessoas que certamente viveram o seu momento de paixão, mas que findado esse auge de atracção, mantiveram-se unidos numa relação muito mais substancial, tornaram-se companheiros um do outro. É claro que sou muito inexperiente para apreender a riqueza de tal companheirismo, mas não deixa de ser surpreendente. Duas pessoas que certamente se depararam com muitos obstáculos, que passaram por momentos muito difíceis, mas que os ultrapassaram e que sabem valorizar tudo de bom que a vida lhes deu e ainda pode dar. Hoje, após tantos anos ainda estão juntos e neste momento perante mais um desafio.
Encontrei-a sozinha pois o marido já não consegue levantar-se e por isso não irão mais dar passeios de mãos dadas. Consegui ler a tristeza profunda nos seus olhos de que agora tudo será diferente. Queria não deixar de abraçá-la, demonstrar-lhe que a compreendo. Mas sei que não me é possível compreender a profundidade desse sentimento.
O que acontecerá daqui para a frente, só o tempo dirá e por quanto dirá. Mas este casal é e será sempre especial…
Tudo isto me faz lembrar algo que li recentemente e que diz:
«Se a metáfora do amor apaixonado é a do fogo, a do amor companheirismo é a das videiras que crescem entrelaçadas e gradualmente ligam duas pessoas.»* [A Conquista da Felicidade, Jonathan Haidt]
Como ramos que crescem entrelaçados, duas pessoas que vivem toda uma vida em companheirismo levarão certamente uma doce recordação das suas existências.